Então, todos sobreviveram safe and sound ao breu total? É um saco ser tão dependente assim da luz pra viver, né não?
Bom, o meu suplício não durou tanto, só umas duas horinhas e vinte minutos. Eu digo só duas horinhas porque sendo refém da Dona Light como eu tenho sido por anos a fio, taí uma rotina que me é pra lá de familiar e muitas vezes bem mais demorada, afinal, apagões no meu bairro são uma constante, pontuadas por alguns escassos momentos lineares de iluminação variáveis. Aliás, se tem alguém que se vira bem no escuro, c’est moi, de tão escolada no assunto que sou. Nem de lanterna e vela preciso.

E só pra constar: pra garantir estes momentos de iluminação de uma forma mais linear e constante eu tenho sim que ficar com o meu chicotinho à mão, tomando religiosamente o dever de casa da Dona Light via Ouvidoria (que não serve pra nada, nem pra dar resposta na data prometida), via ANEEL (que supostamente está lá pra garantir a qualidade do serviço de fornecimento de energia pelas concessionárias Brasil afora, mas vigora com leis da idade da pedra lascada pra isso, coisa que só garante o direito das mesmas de fazerem quantas patacoadas quiserem sem levar sequer um centavo de multa. Se não acredita, dê uma conferida nos parâmetros de qualidade considerados aceitáveis que vocês vão ver what I am talking about), via Ministro das Minas e Energia (sim, ele ou ela responde sim às suas reclamações, been there, done that), caso contrário, muito provavelmente todo santo dia um breve apagão aconteceria, pelo menos. E não, não estou sendo exagerada, só realista, infelizmente.
E não pense que o meu caso é uma exceção à regra, há muitos casos do tipo around. E olha que eu vivo num bairro de “bacana”, imagina só como não é a situação nos bairros onde moram pessoas menos “bacanas”. Aliás, outro dia eu vi no RJ TV um outro bairro com a realidade igual à minha e não é que a Dona Light teve a petulância de colocar a culpa nos moradores pelos danos materiais sofridos? Não sei por quê fiquei surpresa já que durante todas as reclamações que fiz, foi jogado no ar vez ou outra que o problema muito provavelmente era na minha casa, já que somente eu é que reclamava ininterruptamente do problema (honestamente, às vezes eu odeio os meus vizinhos!), como se a minha casa tivesse o poder de apagar a luz do bairro inteiro (sim, o problema, também conhecido como falta de competência da empresa para gerenciar o local, apaga a energia do meu bairro todo ou metade dele, não somente a da minha rua e muito menos somente a da minha casa).
O engraçado (ou trágico) é que algumas horas antes do incidente a minha irmã estava me falando do surto de apagões que estava acometendo o Rio nos últimos dias, que eu nem estava sabendo. Independente de ter sido ou não desencadeado pelas sempre convenientes desculpas de destemperos climáticos, qualquer empresa séria que é responsável por um serviço dos mais básicos e essenciais destes (afinal, a gente faz o quê sem energia? nem pra dormir dá já que o calor e os mosquitos impedem até isso) e tem ciência da sua importância, tem que saber que tem a obrigação de estar preparada pra evitar ou então minimizar ao máximo eventuais problemas que sim podem acontecer, mas que devem ser somente marolinhas e não tsunamis de proporções continentais.
Aliás, outro red herring favoritado por eles é justamente as condições climáticas adversas, que muito provavelmente levará a culpa pelo apagão de ontem. Pode até ter sido um fator, mas se houvesse de fato uma tecnologia inteligente gerenciada por gente com massa cinzenta adequada para a tarefa que pensa além do arroz com feijão, o problema não teria tido as proporções que teve e nem teria demorado tanto pra ser consertado. É aquela história, razão pra tudo há; desculpa, raramente.
Toda vez que vejo alguém dizer que o Brasil tem água suficiente e que por isso apagões não acontecerão, coisa que foi assegurada por uma ex-Ministra das Minas e Energia, a senhora Dilma Rousseff há duas semanas e que mais providências para assegurar abundância da fonte estavam a caminho, o que só delineia o perfil clueless de quem “gerencia” este setor, eu dou risada. Porque se tem uma coisa que a minha experiência com a Light me ensinou foi que antes de qualquer coisa, tem que se saber o que está fazendo e não só fingir que sabe e muito menos se contentar com pouco do tipo que dá pro gasto. Tem que investir na qualidade da tecnolgia e na preparação das pessoas que vão executá-la e mantê-la on the right track, always. Ou seja, tem que cuidar da estrutura do serviço, porque sem ela, o bonde descarrilha. Mesmo com uma abundância de matéria-prima.
Perguntinha, again: o nosso país não está tão bem financeiramente que anda até emprestando milhões para o fundo monetário? Pois então, quando é que nós, cidadãos vamos começar a ver essa primazia econômica se refletir em serviços básicos de prima qualidade, hein? É, porque isso é o que o dinheiro deveria “comprar”, e não aparências pra parecer bem frente ao mundo. Porque no final das contas, pra quê ter um celular melhor se o serviço vindo dele vai continuar sendo de quinto mundo?
That is the million dollar question que eu não sei até quando continuará sem resposta.
Só lembrando que cabe a nós consumidores garantirmos a resposta certa nessa, reclamando de fato, fazendo valer os nossos direitos, never quitting.
On a lighter but hotter note: Gente, hoje está tão quente no Rio que eu nunca tomei sorvete assim com tanto gosto. Acho que hoje eu só vou tomar sorvete.
Ou chupar gelo.